Universidade do Minho
João dos Santos: aliança entre saúde mental e educação: um paradigma de conectividade centrado na criança
Abstract
dc:description.abstractNo centro do pensamento, da doutrina e da prática clínica e psicopedagógica de João dos Santos encontra-se a chamada de atenção para a urgência inadiável de, em qualquer época e contexto, se velar pela qualidade da relação precoce mãe-bebé, porque dessa relação depende o futuro da criança e, portanto, o futuro do Homem. Esta chamada de atenção é consubstanciada numa obra fundacional em prol da protecção à criança, através da criação de instituições e de serviços para a prevenção precocíssima das perturbações do seu desenvolvimento. Orientando-se pelo lema tão caro à sabedoria popular quanto à psicanálise de que «a educação começa no berço», João dos Santos sublinha que na relação precoce mãe-filho reside o ponto de ancoragem seminal da organização psíquica da criança: a sequência desenvolvimental das etapas pulsionais; a estruturação do Eu individual e autónomo; a formação da personalidade ética, criativa e solidária. Aliando indissociavelmente teoria e prática, João dos Santos empreende, desde a sua diversificada formação profissional até ao fim da sua vida, uma luta tenaz que visa: formação científica rigorosa de técnicos de saúde mental e de educação; integração da Saúde Mental na Saúde Pública; aliança entre Saúde, geral e mental, Educação e Escola; implementação de políticas de protecção materno-infantil que a todos convoque para a obrigação prioritária de se empenharem na defesa da criança; prevenção precocíssima de toda e qualquer perturbação — orgânica, emocional, mental — que possa conduzir à deficiência; reeducação atempada da deficiência, com vista a reabilitação e integração; protecção às famílias com crianças deficientes. João dos Santos foi o criador da Saúde Mental Infantil moderna em Portugal, cujo marco fundamental pode ser situado em 1952, com a criação, pioneira em todo o mundo, da Secção de Saúde Mental no Centro Materno-Infantil de Campo de Ourique. A partir de então, nunca mais deixou de ensinar que o que se não fez pela criança até à entrada para a escola dificilmente se recupera. Na melhor das hipóteses, o jardim-escola e a escola primária podem ainda oferecer uma ocasião para ajudar a criança «a voltar a trás e a retomar o fio à meada», para reparar falhas precoces do seu desenvolvimento, mas sob condição de os educadores possuírem rigorosa formação técnica e, sobretudo humana. É necessário que possuam qualidades relacionais, porque — afirma João dos Santos — a escola infantil é (deve ser) maternal, ainda que o educador seja homem. Defendendo a ideia de que qualquer técnico que tenha por profissão cuidar da criança, seja educador, professor ou médico, deve possuir conhecimentos de psicologia e ter atenção à própria saúde mental, propõe como ideal o que ele próprio fez: que haja psicanalistas dispostos a integrar grupos de trabalho constituídos por estes profissionais. Não só porque grande parte das dificuldades ou até insucessos nestes grupos derivam de conflitos gerados entre os seus membros, como da tendência inconsciente que temos a projectar sobre «a criança que agora o é», os problemas não resolvidos «da criança que fomos e que continuamos a trazer às costas». Nesta linha de pensamento, teve de alertar para o perigo de o ensino teórico da psicanálise se tornar inconsistente e mesmo perigoso quando desligado da experiência de uma análise pessoal. Por isso esforçou-se ele próprio, nos seus escritos e magistério, por fornecer noções psicanalíticas úteis para os que educam ou cuidam da criança, investindo o seu saber de psicanalista na Escola. A obra de João dos Santos permanecerá sempre em aberto. Como cientista, teve consciência da actualidade, sempre renovada, do que expressa nesta frase: «O que num determinado momento se sabe é para se ultrapassar». No entanto, como acontece com os autores clássicos, o seu Pensamento e Obra, que inaugurou em Portugal a Psiquiatria Infantil moderna, é alicerce para novas construções deste edifício do conhecimento. Por isso, e parafraseamos Wilfred Bion, as suas ideias estão à procura de pensadores.
Degree
thesis:*- Name thesis:degree_name
- Tese de doutoramento em História da Educação
- Year dc:date.issued
- 2007
Author and committee
dc:creator, dc:contributor.*- Author dc:creator
-
- Branco, Maria Eugénia Bandeira de Carvalho e
- Advisors dc:contributor.advisor
-
- Magalhães, Justino
- Antunes, Maria da Conceição Pinto
Rights
dc:rights- Statement dc:rights
-
- restrictedAccess
- Language dc:language.iso
- por
Identifiers
dc:identifier.*- Handle dc:identifier.uri
- https://hdl.handle.net/1822/6267