{"id":{"repo_id":"brazil-uff","oai_identifier":"oai:app.uff.br:1/38515"},"canonical_url":"https://search.dev.ndltd.org/etd/brazil-uff/oai:app.uff.br:1/38515","repository":{"repo_id":"brazil-uff","name":"Brazil UFF","base_url":"https://app.uff.br/oai/request"},"display":{"title":"A mística, a serenidade e a espiritualidade: a fenomenologia hermenêutica de Heidegger, as experiências espirituais e a daseinsanálise","abstract":"Nesse trabalho, apresentamos um estudo a partir da fenomenologia hermenêutica de Heidegger sobre experiências espirituais e o modo como a daseinsanálise lida e acolhe tais experiências. Mestre Eckhart, dominicano do século XIII, compreendia a experiência de Deus como intimamente relacionada com a virtude do desprendimento. Ao desprender-se da atração dos entes, o homem pode abrir-se para uma experiência espiritual com o Absoluto. A referida experiência com Deus, sustenta-se numa disposição afetiva própria, a serenidade (Gelassenheit). Mais de setecentos anos depois do Mestre Eckhart, Simone Weil, judia francesa do século XX, descreve um Encontro com Cristo que altera todo modo como o mundo se abre para ela desde então. A presença de Cristo em sua vida realiza uma profunda mudança no modo como a atenção se constitui. Para Weil, assumimos o que ela chama de \"atenção criadora\", onde vemos a dor e o sofrimento de todos. A partilha e acolhimento do sofrimento do outro faz-se premente quando estamos na experiência de Cristo. Tanto para Mestre Eckhart como para Simone Weil a experiência é mística no sentido de um Encontro misterioso com Deus. Deus na experiência mística, no ocidente, é um Encontro com Alguém, com um TU, que apresenta uma disposição afetiva própria que produz mudanças significativas no modo como o mundo abre-se e vêm ao encontro do Dasein. Com Heidegger, nos aproximamos de uma experiência espiritual não distinta, mas também não idêntica à mística: a serenidade (Gelassenheit). Para o pensador alemão, a serenidade pode ser compreendida como um aguardar pelos envios do Ser. O Ser envia, doa e ele mesmo é o sentido, sentido que destina os entes sob determinada luz e os faz aparecer de tal e qual modo. Contudo, na serenidade, em Heidegger diferentemente do Mestre Eckhart, não temos um Encontro, pois o Ser não é Alguém ou mesmo Deus. Entretanto, na serenidade o Dasein é disposto de modo distinto e os entes não são mais o alvo da atenção que se volta para o Ser. É importante apontar que nessa tese, com a daseinsanálise, lançamos mão dos sonhos narrados por um paciente em psicoterapia que indicavam para uma não tematização ou apropriação de possibilidades existenciais que relacionavam-se com experiências espirituais. Assim, ao lado de Mestre Eckhart e de Simone Weil, o paciente volta-se para uma aproximação de suas próprias experiências que, acolhidas, o dispõe de modo diverso, com uma atenção desprendida dos significados simplesmente dados e voltada para o Ser e seus envios. Poderia dizer ainda, no caso do referido paciente, que trata-se de uma atenção voltada para Deus, voltada para um Encontro e sua disposição afetiva deslocante e por vezes assustadora. Na daseinsanálise, a experiência do analisando dirige nosso trabalho, e a psicoterapia a partir desta abordagem, aponta na direção da desconstrução de sentidos rigidamente estabelecidos, ancorados na metafísica constituidora de um mundo simplesmente dado. A partir da apropriação de sentidos, podemos seguir na direção de uma abertura para a explosão de possibilidades existenciais que é o próprio Dasein. Possibilidades estas que podem ser inclusive, para muitos, de caráter espiritual. Experiências espirituais que são alvo do horizonte técnico vigente que as deslegitimizam. A daseinsanálise aponta para o 5 espírito e não propriamente para a inteligência. Espírito entendido como abertura para o Ser; a inteligência entendida como cálculo, aptidão para a eficiência produtiva do mundo técnico. Entendemos assim o que seja psicoterapia: cuidado com a alma, com o espírito.","abstract_html":"Nesse trabalho, apresentamos um estudo a partir da fenomenologia hermenêutica de Heidegger sobre experiências espirituais e o modo como a daseinsanálise lida e acolhe tais experiências. Mestre Eckhart, dominicano do século XIII, compreendia a experiência de Deus como intimamente relacionada com a virtude do desprendimento. Ao desprender-se da atração dos entes, o homem pode abrir-se para uma experiência espiritual com o Absoluto. A referida experiência com Deus, sustenta-se numa disposição afetiva própria, a serenidade (Gelassenheit). 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Deus na experiência mística, no ocidente, é um Encontro com Alguém, com um TU, que apresenta uma disposição afetiva própria que produz mudanças significativas no modo como o mundo abre-se e vêm ao encontro do Dasein. Com Heidegger, nos aproximamos de uma experiência espiritual não distinta, mas também não idêntica à mística: a serenidade (Gelassenheit). Para o pensador alemão, a serenidade pode ser compreendida como um aguardar pelos envios do Ser. O Ser envia, doa e ele mesmo é o sentido, sentido que destina os entes sob determinada luz e os faz aparecer de tal e qual modo. Contudo, na serenidade, em Heidegger diferentemente do Mestre Eckhart, não temos um Encontro, pois o Ser não é Alguém ou mesmo Deus. Entretanto, na serenidade o Dasein é disposto de modo distinto e os entes não são mais o alvo da atenção que se volta para o Ser. É importante apontar que nessa tese, com a daseinsanálise, lançamos mão dos sonhos narrados por um paciente em psicoterapia que indicavam para uma não tematização ou apropriação de possibilidades existenciais que relacionavam-se com experiências espirituais. Assim, ao lado de Mestre Eckhart e de Simone Weil, o paciente volta-se para uma aproximação de suas próprias experiências que, acolhidas, o dispõe de modo diverso, com uma atenção desprendida dos significados simplesmente dados e voltada para o Ser e seus envios. Poderia dizer ainda, no caso do referido paciente, que trata-se de uma atenção voltada para Deus, voltada para um Encontro e sua disposição afetiva deslocante e por vezes assustadora. Na daseinsanálise, a experiência do analisando dirige nosso trabalho, e a psicoterapia a partir desta abordagem, aponta na direção da desconstrução de sentidos rigidamente estabelecidos, ancorados na metafísica constituidora de um mundo simplesmente dado. A partir da apropriação de sentidos, podemos seguir na direção de uma abertura para a explosão de possibilidades existenciais que é o próprio Dasein. Possibilidades estas que podem ser inclusive, para muitos, de caráter espiritual. Experiências espirituais que são alvo do horizonte técnico vigente que as deslegitimizam. A daseinsanálise aponta para o 5 espírito e não propriamente para a inteligência. Espírito entendido como abertura para o Ser; a inteligência entendida como cálculo, aptidão para a eficiência produtiva do mundo técnico. 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Mais de setecentos anos depois do Mestre Eckhart, Simone Weil, judia francesa do século XX, descreve um Encontro com Cristo que altera todo modo como o mundo se abre para ela desde então. A presença de Cristo em sua vida realiza uma profunda mudança no modo como a atenção se constitui. Para Weil, assumimos o que ela chama de \"atenção criadora\", onde vemos a dor e o sofrimento de todos. A partilha e acolhimento do sofrimento do outro faz-se premente quando estamos na experiência de Cristo. Tanto para Mestre Eckhart como para Simone Weil a experiência é mística no sentido de um Encontro misterioso com Deus. Deus na experiência mística, no ocidente, é um Encontro com Alguém, com um TU, que apresenta uma disposição afetiva própria que produz mudanças significativas no modo como o mundo abre-se e vêm ao encontro do Dasein. Com Heidegger, nos aproximamos de uma experiência espiritual não distinta, mas também não idêntica à mística: a serenidade (Gelassenheit). Para o pensador alemão, a serenidade pode ser compreendida como um aguardar pelos envios do Ser. O Ser envia, doa e ele mesmo é o sentido, sentido que destina os entes sob determinada luz e os faz aparecer de tal e qual modo. Contudo, na serenidade, em Heidegger diferentemente do Mestre Eckhart, não temos um Encontro, pois o Ser não é Alguém ou mesmo Deus. Entretanto, na serenidade o Dasein é disposto de modo distinto e os entes não são mais o alvo da atenção que se volta para o Ser. É importante apontar que nessa tese, com a daseinsanálise, lançamos mão dos sonhos narrados por um paciente em psicoterapia que indicavam para uma não tematização ou apropriação de possibilidades existenciais que relacionavam-se com experiências espirituais. Assim, ao lado de Mestre Eckhart e de Simone Weil, o paciente volta-se para uma aproximação de suas próprias experiências que, acolhidas, o dispõe de modo diverso, com uma atenção desprendida dos significados simplesmente dados e voltada para o Ser e seus envios. Poderia dizer ainda, no caso do referido paciente, que trata-se de uma atenção voltada para Deus, voltada para um Encontro e sua disposição afetiva deslocante e por vezes assustadora. Na daseinsanálise, a experiência do analisando dirige nosso trabalho, e a psicoterapia a partir desta abordagem, aponta na direção da desconstrução de sentidos rigidamente estabelecidos, ancorados na metafísica constituidora de um mundo simplesmente dado. A partir da apropriação de sentidos, podemos seguir na direção de uma abertura para a explosão de possibilidades existenciais que é o próprio Dasein. Possibilidades estas que podem ser inclusive, para muitos, de caráter espiritual. 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