Universidade Aberta
O mercador de palavras ou as encruzilhadas da escrita medieval : (1100-1270)
Abstract
dc:description.abstractO século XII francês caracteriza-se por múltiplas transformações (políticas, sociais, económicas, jurídicas, ideológicas, culturais) que redefinem, lenta mas profundamente, os contornos da civilização medieval. Ora, uma das mutações mais decisivas (senão a mais decisiva e marcante) reside justamente na passagem, que perscrutamos atentamente a partir dos múltiplos discursos que in-formam o texto poético, de uma economia oblativa, intimamente ligada ao pensamento simbólico, para uma economia mercantil e monetária, subordinada ao imaginário do signo. Será por mero acaso se vemos nascer e desenvolver-se, neste preciso contexto, a narrativa ficcional em língua vernacular (em romance)? Ou será uma mesma viragem epistemológica que dá simultaneamente origem à notável monetarização (aos mais diversos níveis) das relações sociais, ao renascimento da vitalidade urbana (factores através dos quais tendem a dissolver-se os laços, extremamente fortes e ritualizados, que uniam os homens uns aos outros na sociedade feudal), ao desabrochar do pensamento escolástico e das Ordens Mendicantes, à irrupção das catedrais góticas e à emergência de uma literatura profana que reivindica, pouco a pouco, a sua autonomia perante os sistemas poéticos latinos ou neolatinos? Surgia assim uma rede coerente de possíveis analogias na qual se vislumbrava a estranha e singular geminalidade entre a imagem ambígua do mercador (modelo da fertilidade e comunicação restauradas sobre o qual plana, todavia, e inelutavelmente, o espectro da usura, da avareza, da fraude, da mentira e da falsificação diabólicas) e a não menos ambígua figura do poeta, esse demiurgo que se compraz no jogo, ao mesmo tempo lúdico e subversivo, dos simulacros da Palavra, da Criação e da Verdade. Sobre ambos, pesa o anátema da danação; ambos aspiram, no limiares de uma espécie de Purgatório da linguagem, à plena legitimação dos respectivos discursos. Numa altura em que começam a desagregar-se os valores constitutivos do feudalismo, em que a relação com um Significado fundador, referencial, se torna cada vez mais longínqua e irrecuperável, a ficção e a moeda cunhada emergem assim como dois novos tipos de mediação ante o objecto de desejo, como duas formas de escrita (homólogas, embora distintas e autónomas) que modificam as relações com o Outro e com o mundo (e com o Outro-Mundo inclusive), tanto quanto as suas respectivas representações, e através das quais se elaboram, em suma, novos processos de simbolização. A dualidade e duplicidade que se instauram entre estes dois modos privilegiados de representação (mental e socialmente construída) não podia deixar de ter influências na própria concepção da palavra poética. Com efeito, a forma como dialogam, se entrelaçam, colidem ou se excluem mutuamente imaginário oblativo (bem patente no ideal cavaleiresco e cortês de liberalidade, por exemplo) e imaginário mercantil, abre-nos um terreno de investigação único para observarmos o modo como os dois principais géneros narrativos em verso dos séculos XII-XIII (a canção de gesta e o romance que analisamos mais minuciosamente), reflectem e/ou inflectem o universo que os rodeia e, nesse processo, verificar de que forma se interrogam sobre o seu próprio estatuto e se posicionam um face ao outro através de secretas ou explícitas relações dialógicas e intertextuais. Se, nesta perspectiva, vemos o discurso épico dar, frequentemente, corpo e voz ao inconsciente ideológico e textual recalcado nos inúmeros inter-ditos, ou não-ditos, que estruturam o imaginário romanesco (e vice versa), evidenciando simultaneamente as potencialidades e os limites de uma determinada concepção da linguagem poética e da visão do mundo que (a) sustenta e veicula, caberá à chamada narrativa "realista" do século XIII levar este processo de reflexão (no sentido cognitivo e especular do termo) às últimas consequências. Com efeito, ao multiplicar falaciosamente os "efeitos de real" e as referências ao universo económico, esta narrativa sugere que a única realidade da/na literatura consiste, na verdade, no facto de ser uma arte, subtil e engenhosamente, tecida através de uma temível e sedutora manipulação da retórica da linguagem e das formas significantes nas quais se espelha incessantemente. Desta nova economia poética, emerge uma (in)suspeita, mas agora triunfal e triunfante, relação entre o poeta e o mercador de palavras, entre a usura e a narrativa ficcional enquanto infinita reprodução de simulacros e perpétua deslocação metafórica de uma significação ao mesmo tempo proliferante e sempre ausente; relação na qual se vislumbra a natureza paradoxal, evanescente e profundamente enganadora, do texto medieval como eterna falsa moeda sígnica e semântica.
Author and committee
dc:creator, dc:contributor.*- Author dc:creator
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- Carreto, Carlos F. Clamote
- Advisors dc:contributor.advisor
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- Godinho, Helder
- Marques, Maria Emília Ricardo
Subjects
dc:subject × 19- Literatura francesa
- Século XII
- História
- Sociedade
- Cidade
- Cultura francesa
- Poética
- Mercadores
- Romance
- Mentalidade
- Signos
- Teoria da literatura
- Medieval French Literature (12th-13th centuries)
- Merchants in medieval literature
- Medieval culture and civilization
- History and literary criticism
- Theory(ies) of literature (Rhetoric, Poetics, Theory of Genre)
- Literature and economy
- Language and imaginary
Rights
- Language dc:language.iso
- por
Identifiers
dc:identifier.*- Identifier URI
- urn:tid:101119739
- OAI identifier oai:identifier
- oai:repositorioaberto.uab.pt:10400.2/2470