Universidade de Brasília
Imigração feminina no Brasil : um estudo interseccional sobre as trajetórias, redes sociais e trabalho das haitianas residentes no Distrito Federal
Abstract
dc:description.abstractEste estudo examinou a imigração feminina haitiana no Brasil, por meio da análise interseccional das relações de gênero, raça, nacionalidade e classe, a partir de três eixos: 1. Trajetórias e redes migratórias e sociais; 2. Vida no Brasil (antes e durante a pandemia de Covid-19); e, 3. Divisão sociossexual e racial do trabalho. Pensar essas categorias de discriminação no contexto das migrações internacionais é necessário diante da realidade de que as mulheres trabalhadoras, negras, imigrantes do Sul global, ainda estão marcadas pela invisibilidade nos estudos migratórios, principalmente na região da América Latina e Caribe, diante dos deslocamentos Sul-Sul mais recorrentes neste início do século XXI. Por muito tempo a mulher foi rotulada como mera acompanhante dependente do trabalhador imigrante masculino, sem projeto migratório próprio. Este estudo se propõe a desmistificar essa imagem e mostrar que a mulher tem estado cada vez mais presente e autônoma no movimento migratório internacional. Muitas delas viajando sozinhas e de forma independente da figura masculina. Embora não prescinda de redes sociais e migratórias que lhes deem suporte nessa empreitada. O fenômeno da feminização das migrações, na era da globalização neoliberal, tem se caracterizado pelo deslocamento cada vez maior de mulheres de países pobres em busca de uma vida melhor, principalmente pela via do trabalho, em países mais desenvolvidos. Mas, diante da própria lógica do capital e das estruturas de discriminação que ele cria ou se apropria para gerar desigualdades e explorações, essas mulheres permanecerão na periferia do desenvolvimento social, cultural e econômico. A diáspora haitiana é um rico terreno para investigar essas questões. Para tanto, realizei uma pesquisa qualitativa, na perspectiva crítica, utilizando as lentes analíticas da interseccionalidade e da posicionalidade translocacional. Recorri às técnicas de aplicação de questionário virtual e entrevistas presenciais, análise de relatos de vida, documental e bibliográfica, e consulta a dados quantitativos secundários relativos ao período de 2010 a 2020. Participaram deste estudo 33 mulheres haitianas, residentes no Distrito Federal (DF). Os dados revelaram que essas jovens mulheres, em sua maioria com médio a alto nível escolar, enfrentam barreiras estruturais, não apenas geográficas, como também linguísticas, culturais, sociais e econômicas no Brasil e, mais precisamente no DF. Elas encontram nas suas redes pessoais e institucionais o principal apoio para ingressarem e permanecerem no movimento migratório transnacional, tanto antes quanto durante a pandemia de Covid-19, com destaque para o Auxílio Emergencial neste período. O ambiente de trabalho foi o lócus principal das intersecções entre as estruturas de desigualdade analisadas. O sexismo, o racismo e a xenofobia, com traços de classismo, por serem provenientes de um dos países mais pobres do mundo, se combinaram de forma perversa nas experiências migratórias dessas mulheres. Como resultado, elas vivenciam em seu cotidiano de trabalho diversas formas de preconceito e discriminação, levando-as a uma posição de subalternidade, em ocupações desprestigiadas e estigmatizantes tanto para os padrões culturais do Brasil quanto do Haiti, em áreas incompatíveis com a formação da maioria delas, principalmente como trabalhadoras do care, na área de limpeza, com baixas remunerações que não lhes permitem atingir os objetivos de seus projetos migratórios. A pandemia de Covid-19 aprofundou esse quadro, agregando novas dificuldades para a entrada e permanência das haitianas nos mercados de trabalho. O que se percebeu na fase empírica foi que a maioria delas está com os seus pés no Brasil e o coração no Haiti, mas seus olhos permanecem voltados para o horizonte migratório, aguardando tempos favoráveis para seguirem circulando pelo mundo.
Author and committee
dc:creator, dc:contributor.*- Author dc:creator
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- Solouki, Danielle Galdino
- Advisor dc:contributor.advisor
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- Guedes, Cristiano
Rights
dc:rights- Statement dc:rights
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- Acesso Aberto
- Language dc:language.iso
- por
Identifiers
dc:identifier.*- Repository record dc:identifier.uri
- http://repositorio.unb.br/handle/10482/47971